
- Diretor Daniel Reis entrevista “seu” Dedé – Foto: Rodrigo Herrero
Rodrigo Herrero
Como comentado em nosso twitter, a equipe do documentário “Vila Maria Zélia: histórias de uma São Paulo de ontem, hoje e sempre” esteve ontem na Vila Maria Zélia para captar imagens e entrevistas para a criação de um teaser, um vídeo de mais ou menos um minuto que resumirá o que pretende ser o projeto. Foram registros de sonhos, histórias, sensações e percepções variadas de um lugar que clama por ser restaurado e por permanecer na lembrança como um dos atores importantes na industrialização da cidade de São Paulo.
Cheguei às 9h da manhã e já pude perceber uma movimentação diferente na vila. Havia gravação de uma propaganda de televisão em frente ao Armazém, com toda a parafernália que esse tipo de trabalho demanda. Mesmo isso não pareceu afetar a tranqüilidade da vila, com suas crianças brincando e pessoas passeando com seus cachorros pela praça, que fica na entrada, e carros entrando e saindo. A missa também transcorreu normalmente na capela de São José, repleta com senhores e senhoras que ainda dedicam suas manhãs de domingo para um reconforto espiritual.
Meu diretor, Daniel Reis, chegou uns 15 minutos depois, enquanto eu lia um trecho do livro da Palmira Petratti sobre a vila, e ficamos batendo papo sobre como conduziríamos as entrevistas, a captação das imagens, enfim, o dia de trabalho. Um tempo depois, a equipe de gravação chegou, com o diretor de fotografia Theo Grahl e o nosso grande assistente de luz, operador de áudio e faz tudo, amigo e parceiro, Giuliano Novi. Após algumas preparações, fomos para a primeira entrevista do dia, que deverá servir de base para o documentário.
E, claro, como não poderia deixar de ser, o entrevistado foi o Edélcio Pereira Pinto, de 60 anos, que, como já dissemos no post anterior, é o “zelador voluntário” da vila, ou “cicerone”, como ele brincou antes de iniciarmos o bate-papo. Trata-se de uma figura rara, apaixonada pela vila como se fosse sua própria vida ali fincada em cada tijolo, parede e teto daqueles antigos casarões.
Ele contou sobre como entrou na luta para defender a Vila Maria Zélia, seu envolvimento diário, enfiado em pesquisas para saber cada vez mais sobre a história da cidadela e de Jorge Street, o responsável por aquele “sonho” ter sido possível e a transmissão desse conhecimento para jovens estudantes que frequentemente procuram-no para saber mais da vila. Ele falou também sobre sua relação e apego que tem com a vila.
“É morar no paraíso A vila é o lugar único que temos em São Paulo. A gente parece que está em um lugar diferenciado. Parece que é uma cidadezinha do interior, de 600 pessoas, mas que tá fora desse reboliço todo. É um ícone da cidade. Por isso tenho tanto apreço, tanto amor, me dedico tanto à preservação daqui”, afirmou, emocionado.
Na seqüência entrevistamos a dona Rosaura Amantea do Nascimento, de 76 anos, moradora desde sempre da vila, mesmo tendo saído para morar nas redondezas: “Me considero com 76 anos de Maria Zélia”, disse. Sua história com a vila é intimamente ligada pela de sua mãe, dona Cinta, já falecida, mas que residia na vila desde seus tempos áureos, tendo trabalhado para Jorge Street na Companhia Nacional de Tecidos de Juta desde os 10 anos.
Ela nos brindou com algumas histórias interessantes dos tempos de sua mãe na fábrica e como ela endeusava Jorge Street e dona Zélia, esposa do empresário, por proporcionar trabalho, moradia e tudo que uma família necessitava à época. “A dona Zélia trazia doces para as crianças que ficavam esperando por ela”, contou. Dona Rosaura também revelou certa amargura com o estado atual da vila e alguma desesperança em ver aquele lugar um dia semelhante ao que já foi: “Eu não sei se vai sair alguma coisa, porque deixou cair muito”.
Após as entrevistas saímos pelas ruas da vila captando imagens para ilustrar as entrevistas, percebendo sons, movimentos, detalhes de uma vila que é um verdadeiro bunker de aparente calmaria e civilidade, em meio a um caos de desordem e sujeira que é seu entorno, o bairro do Belenzinho. O sol estava forte, castigando nossa equipe, que seguiu trabalhando até às 15h30. Pudemos passear também pela parte interna da Escola dos Meninos, que rendeu imagens ótimas e também pelo museu improvisado, captando detalhes da antiga vila, por meio de fotos e objetos da época.
Você pode ver algumas fotos do making of tiradas ontem durante a captação das entrevistas e das imagens. Clique aqui e veja no flickr!